ENAPAS e ENCICAT 2026 - Encontro em Caucaia: Quando a Igreja Descobre que Ouvir é Transformador

Encontro em Caucaia: Quando a Igreja Descobre que Ouvir é Transformador

A Regional Centro-Oeste vivencia o ENAPAS e ENCICAT 2026 e aprende lições que mudam a forma de compreender inclusão
Por Eduarda Bispo │ Pastoral do Surdo Regional Centro-Oeste
Entre os dias 21 e 24 de janeiro, seis representantes da Regional Centro-Oeste da Pastoral do Surdo estiveram em Caucaia, Ceará, para o 21º Encontro Nacional da Pastoral do Surdo — ENAPAS.

Foi em encontro incrível. E voltamos com compreensões que transformam a forma como entendemos nossa missão.

Quando a Liderança Eclesial se Faz Presente

A primeira lição veio simples: estar em um espaço onde bispos e padres escolhem estar junto com a comunidade surda não por obrigação, mas por compromisso.

Dom Adilson Busin, Bispo Referencial da Pastoral do Surdo, e Dom Gregório Paixão, Arcebispo de Fortaleza, não fizeram apenas discurso de abertura. Permaneceram durante todo o encontro. Rezaram. Escutaram. Participaram.

Sete padres dedicados à pastoral acompanharam o evento: Pe. Elizeu dos Santos, Pe. José Claudiano Ferreira, Pe. Hélio de Jesus, Pe. Wilson Czaia, Pe. Jurandir Dias, Pe. Joule Windson e Pe. Denis Aparecido.

Entre eles, dois padres surdos — Pe. Hélio de Jesus e Pe. Wilson Czaia — celebraram a liturgia. Não como exceção curiosa, mas como expressão natural de que surdos ocupam lugares de liderança eclesial genuína.

Quatro religiosas comprometidas com a inclusão também estiveram presentes: Irmã Maria Aparecida, Irmã Madalena Santos, Irmã Edileuza Damasceno e Irmã Andréia Müller, cada uma contribuindo com sua dedicação ao trabalho com a comunidade surda.

Para uma regional em crescimento, essa presença institucional comunica uma mensagem clara: a Pastoral do Surdo não é atividade marginal. É missão evangelizadora que merece ser levada a sério. Merece estar no coração da Igreja, não nas margens.

Sinodalidade Deixa de Ser Palavra para Ser Experiência

O tema “Sinodalidade — Caminhar Juntos com a Comunidade Surda” poderia soar como conceito abstrato. Na prática, mostrou-se como uma transformação concreta.

Ver surdos e ouvintes em diálogo genuíno sobre a vida da pastoral. Ouvir coordenadores surdos falar com autoridade sobre sua própria fé e sua própria comunidade. Testemunhar decisões sendo tomadas porque de verdade se escutou a voz de quem vive a realidade: isso é sinodalidade.

Compreendemos que a Igreja não está oferecendo um serviço especial aos surdos. A Igreja está aprendendo com os surdos. Descobrindo que comunicar de verdade não é falar para alguém. É criar espaço de diálogo genuíno onde ambas as partes se transformam.

Quando Técnica Encontra Vocação

Simone Nascimento, intérprete há 28 anos, transformou sua palestra em testemunho de vida. Em vez de apresentar apenas técnicas, compartilhou a jornada.

“O altar também passa pelas minhas mãos.”

Aquela frase resume tudo: o que poderia ser visto apenas como função profissional se torna ministério pastoral quando vivido com autenticidade.

Simone falou sobre a importância de orar antes de interpretar. Sobre deixar o Espírito Santo atuar. Sobre responsabilidade de colocar-se a serviço da Palavra. E compartilhou a reflexão que fica:

“Quem domina a Libras comunica. Quem vive a Pastoral transforma.”

Para as comunidades, essa distinção é crucial. Não se trata apenas de ter pessoas que saibam Libras, mas pessoas que compreendam que sua ação tem dimensão espiritual profunda.

Inclusão na Música Litúrgica: Não é Adaptação, É Pertença

Thiago Vechiato apresentou uma questão fundamental: por que a música litúrgica seria exclusivamente auditiva?

Quando a música é sinalizada, o louvor ganha mãos. A Palavra ganha corpo. A Igreja se torna verdadeiramente inclusiva não porque “adaptou algo para surdos”, mas porque reconheceu que Libras é língua plena, capaz de expressar toda a riqueza teológica da liturgia.

A lição é clara: Libras não empobrece a experiência religiosa. Ela a amplifica, revelando camadas novas de sentido. Nas dioceses, esse entendimento pode transformar como celebramos.

O Direito que Desconhecíamos

A Pastoral de Belo Horizonte compartilhou conhecimento que muda tudo: os Cânones 990, 993 e 1106 do Código de Direito Canônico garantem direito à participação plena nos sacramentos, com intérpretes qualificados.

Isso não é favor concedido por boa vontade. É direito estabelecido pela própria lei da Igreja.

Essa compreensão transforma completamente o diálogo com dioceses e bispos. Não pedimos como caridade. Exigimos como direito canônico fundamentado. Isso oferece ferramenta legal para garantir acessibilidade sacramental.

Estrutura que Expressa Convicção

O novo Regimento Interno, aprovado em 23 de janeiro, revela quanto a Pastoral do Surdo compreendeu sobre seu próprio papel. A estrutura não é apenas administrativa. É teológica.

O surdo é protagonista com autonomia total — não objeto de assistencialismo. Coordenação paritária entre Setor Surdo e Setor Ouvinte/Intérpretes. Exigência de que todos os ouvintes sejam fluentes em Libras.

Desde 1975, a Pastoral do Surdo funcionava com essa convicção. O novo Regimento apenas formaliza e aprofunda o que sempre foi seu coração: dignidade e protagonismo da pessoa surda como princípio não negociável.

A Liderança que Governará o Movimento

A eleição da nova Coordenação Nacional revelou compromisso com transparência democrática e com protagonismo surdo genuíno:

Coordenação Nacional da Pastoral do Surdo — Biênio 2026–2027

Conforme deliberação nacional realizada durante o ENAPAS 2026, a Pastoral do Surdo no Brasil encontra-se organizada sob a seguinte Coordenação Nacional para o biênio 2026–2027:

Bispo Referencial Nacional: Dom Adilson Busin — Diocese de Tubarão, Tubarão/SC

Assessoria ao Bispo Referencial: Jaqueline Laureano — Diocese de Tubarão, Tubarão/SC

Setor Surdo — Coordenação Nacional

Coordenador Nacional: Alexandre Carlos — Arquidiocese do Rio de Janeiro/RJ

Vice-Coordenadora Nacional: Thais Cortez — Rio Grande do Norte/RN

Secretário Nacional: Ayrton Maracajá — Paraíba/PB

Tesoureira Nacional: Isabella Pereira — São Paulo/SP

Setor Ouvinte — Coordenação Nacional

Coordenador Nacional: Antônio Nilson — Paraná/PR

Vice-Coordenador Nacional: Carlos Augusto — Ceará/CE

Secretário Nacional: Renan Antonelo — Rio Grande do Sul/RS

Tesoureira Nacional: Maria Inês Leandro — São Paulo/SP

Assessoria Espiritual

Assistente Eclesiástico do Setor Surdo: Pe. Wilson Czaia — Paraná/PR

Assistente Eclesiástica dos Setores Surdo e Ouvinte: Ir. Maria Aparecida — Paraná/PR

Surdos em posições de liderança genuína, com poder decisório real. Isso não é representação simbólica. É transformação estrutural de como o movimento funciona.

Dois Encontros Marcam o Futuro

No encerramento, a Coordenação Nacional anunciou os próximos passos do movimento.

Em 2028, o ENAPAS será realizado no Rio de Janeiro. Haverá tempo para aprofundar as reflexões iniciadas em Caucaia, para que a nova coordenação consolide o novo Regimento, para que as regionais cresçam na compreensão prática de sinodalidade.

2030: A Responsabilidade da Regional Centro-Oeste

Mas há uma decisão que toca profundamente a Regional Centro-Oeste: em 2030, Goiânia será sede do 23º ENAPAS. Nossa regional será anfitriã.

Esse não é simples honor administrativo. É reconhecimento de maturidade. É convite para que a Centro-Oeste, após vivenciar em Caucaia o que significa sinodalidade de verdade, seja capaz de transmitir essa experiência para o Brasil inteiro.

Nos próximos quatro anos, a tarefa será grande. Não apenas preparar a logística do encontro, mas criar clima espiritual. Levar para nossas comunidades as lições aprendidas. Fortalecer estruturas pastorais. Capacitar intérpretes. Envolver bispos e padres.

Quando Goiânia 2030 chegar, o Brasil inteiro verá uma regional que compreendeu de verdade que sinodalidade não é palavra bonita em documento. É prática cotidiana de ouvir, valorizar e colocar a comunidade surda no coração da vida eclesial.

Aprendizagens que Levamos

A Regional Centro-Oeste volta de Caucaia com convicções renovadas.

Aprendemos que inclusão não é adaptação voluntária. É reconhecimento de que a pessoa surda tem lugar próprio, dons próprios, vocação própria no corpo de Cristo.

Aprendemos que acessibilidade não é caridade. É direito garantido pelo próprio Código de Direito Canônico.

Aprendemos que, quando a Igreja realmente ouve a comunidade surda — quando a coloca no centro e não nas margens — a própria Igreja se transforma, tornando-se mais fiel ao Evangelho.

Aprendemos que padres surdos, intérpretes apaixonados e religiosas dedicadas não são exceções curiosas. São expressão viva de que a Pastoral do Surdo é movimento autêntico, encarnado e transformador.

Aprendemos que há muito a fazer. E que há também muito a aprender com outras regionais que já caminham este caminho há mais tempo.

O Chamado que Fica

Voltamos de Caucaia com clareza sobre nossa missão nos próximos anos.

Precisamos disseminar o que aprendemos: que a Pastoral do Surdo é missão central, não periférica. Que sinodalidade é forma concreta de viver. Que surdos devem estar em posições de liderança, não apenas representação.

Precisamos trabalhar com bispos sobre direitos canônicos que garantem intérpretes nos sacramentos. Precisamos capacitar intérpretes com entendimento de que sua vocação é ministério. Precisamos valorizar a música litúrgica em Libras como expressão plena da liturgia, não adaptação.

Precisamos nos preparar para 2030. Para que Goiânia mostre ao Brasil que é possível fazer Igreja de forma verdadeiramente inclusiva, onde a comunidade surda não é “atendida”, mas verdadeiramente pertence.

Um Encontro que Transforma

O 21º ENAPAS e 11º ENCICAT em Caucaia foram mais que evento. Foram escola. Lugar onde a Regional Centro-Oeste aprendeu, testemunhou e se comprometeu com um caminho que é, no fundo, caminho do próprio Evangelho.

“Ide, anunciai a Boa Nova a toda criatura.”
Mc 16,15

Na Regional Centro-Oeste, estamos indo. Com humildade diante de quanto ainda temos que aprender. Com esperança de que, em 2030, Goiânia possa ser testemunho de que quando a Igreja caminha junto com os surdos, caminha melhor. Para todos.

Sobre a Regional Centro-Oeste da Pastoral do Surdo

A Regional Centro-Oeste congrega dioceses e comunidades surdas, promovendo ações de inclusão, formação pastoral e evangelização com dignidade para a pessoa surda. Será anfitriã do 23º ENAPAS em 2030.

Redação:
Eduarda Bispo
Secretária — Pastoral do Surdo Regional Centro-Oeste

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